A FRASE MAIS TRISTE DE UMA CIDADE

Toda cidade precisa destruir alguma coisa para continuar existindo. São Paulo talvez tenha levado essa ideia longe demais. Aqui, um restaurante onde uma família almoçou durante três gerações pode fechar numa terça-feira. Alguns meses depois, há outra coisa naquele endereço. A fachada mudou, a placa desapareceu, as mesas foram embora — e milhares de pessoas passam diante daquele lugar todos os dias sem saber que alguma coisa aconteceu ali. Até que alguém mais velho aponta para o endereço e diz: “Aqui existia…” Talvez seja uma das frases mais melancólicas que uma cidade pode produzir. Aqui existia um cinema. Aqui existia um bar. Aqui meus pais se conheceram. Aqui meu avô trabalhava. Aqui assisti ao meu primeiro filme. Aqui comemoramos alguma coisa que já nem lembro exatamente o que era. O endereço permanece. A memória perdeu seu cenário.

UMA CIDADE NÃO É FEITA APENAS DE PRÉDIOS

Existe uma maneira relativamente simples de olhar para patrimônio. Identificamos um edifício excepcional, estudamos sua arquitetura, reconhecemos sua importância, tombamos, restauramos, colocamos uma placa — e consideramos aquela memória protegida. Mas uma cidade é muito mais complicada do que isso. Nossas lembranças raramente acontecem apenas nos edifícios considerados excepcionais. Elas acontecem no restaurante da esquina, na padaria, no cinema, no salão, no bar onde alguém sentava sempre na mesma mesa, na livraria em que passávamos sem necessariamente comprar alguma coisa, na pequena loja cujo proprietário sabia nosso nome. Esses lugares talvez nunca sejam tombados. Ainda assim, podem contar a história de uma cidade melhor do que muitos monumentos.

COMO ARQUITETO, TALVEZ EU SINTA ISSO DE OUTRA MANEIRA

Quando caminho por São Paulo e observo determinados edifícios antigos, não consigo enxergar apenas uma fachada bonita. Vejo proporção, materiais, ornamentos, marquises, portas, esquadrias, pedras que envelheceram. Vejo a tentativa de alguém, décadas atrás, de construir algo que não precisava apenas funcionar. Precisava pertencer à cidade. E confesso que existe certa nostalgia nisso. Não porque eu acredite que a arquitetura de antigamente fosse sempre melhor. Não era. Nem porque São Paulo devesse se transformar em um museu a céu aberto. Sou arquiteto. Seria contraditório defender uma cidade incapaz de mudar. O que me incomoda é outra coisa. É perceber que, muitas vezes, substituímos edifícios que carregavam personalidade, história e alguma ambição estética por construções absolutamente eficientes — e absolutamente esquecíveis. Vidro, concreto, grandes planos, linhas retas. Fachadas que poderiam estar em São Paulo, Miami, Dubai ou praticamente qualquer outra grande cidade. Prédios novos, caros, tecnologicamente superiores e, algumas vezes, estranhamente incapazes de dizer alguma coisa sobre o lugar onde foram construídos. Talvez não estejamos apenas demolindo edifícios antigos. Em alguns casos, estamos trocando identidade por metragem quadrada.

“Como arquiteto, não sinto nostalgia porque tudo era melhor antigamente. Sinto porque muitos edifícios antigos ainda tinham algo que estamos perdendo: personalidade suficiente para contar de que época e de que cidade vieram.”

O TEMPO TAMBÉM É MATERIAL DE CONSTRUÇÃO

Existe algo nos edifícios antigos que nenhuma fotografia consegue reproduzir completamente: a escala da entrada, o desenho de uma maçaneta, o mármore gasto exatamente onde milhares de pessoas caminharam, a madeira marcada pelo uso, um pé-direito que hoje talvez parecesse economicamente absurdo. Um hall criado numa época em que receber alguém também fazia parte da arquitetura. Talvez seja por isso que determinados edifícios nos emocionem mesmo quando nunca estivemos neles antes. Eles carregam sinais de outras vidas. Não estou falando apenas dos grandes exemplares assinados por arquitetos importantes. Às vezes é um pequeno prédio, uma casa, um cinema, um restaurante, um hotel ou uma loja cuja fachada sobreviveu por cinquenta anos. Essas construções acumulam uma coisa que nenhum lançamento imobiliário consegue entregar no dia da inauguração: tempo. E tempo talvez seja um dos materiais mais nobres da arquitetura.

O PROBLEMA NÃO É CONSTRUIR O FUTURO

São Paulo precisa de novos edifícios, novas tecnologias, novas formas de morar, maior eficiência energética, melhores soluções urbanas, adensamento bem planejado e arquitetura contemporânea. O futuro precisa ser construído. O problema começa quando acreditamos que construir o futuro exige apagar todas as evidências do passado. Ou, pior, quando substituímos aquilo que tinha identidade por algo que poderia estar em qualquer lugar. Existe uma diferença enorme entre modernizar uma cidade e padronizá-la. Uma produz evolução. A outra produz lugares cada vez mais parecidos entre si. E talvez esse seja um dos grandes paradoxos da arquitetura contemporânea: nunca tivemos tanta tecnologia para construir edifícios extraordinários, mas também nunca foi tão fácil construir um prédio que poderia estar em qualquer cidade do planeta.

QUANDO SÃO PAULO IA AO CINEMA

Para entender o tamanho dessa transformação, basta caminhar pelo Centro. Hoje parece quase inacreditável, mas as avenidas São João e Ipiranga já formaram uma das grandes concentrações de salas de cinema da cidade. Entre as décadas de 1930 e 1950, aquela região ficou conhecida como Cinelândia Paulista. Nos anos 1960, cerca de 30 cinemas funcionavam naquela área. Não eram pequenas salas escondidas dentro de centros comerciais. Algumas eram monumentais. O Cine Art-Palácio, projetado por Rino Levi e inaugurado em 1936, possuía mais de 3 mil lugares. É difícil imaginar isso hoje: mais de três mil pessoas atravessando as mesmas portas para assistir a um filme. Mas o cinema era apenas parte da experiência. Ao redor estavam hotéis, restaurantes, confeitarias, boates, salões de dança, livrarias, redações de jornais, emissoras de rádio e teatros. A Biblioteca Mário de Andrade e o Theatro Municipal faziam parte daquela geografia cultural. A cidade não simplesmente assistia a um filme. Ela saía para assistir a um filme. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Houve um tempo em que ir ao Centro para assistir a um filme fazia parte da vida cultural paulistana. A região das avenidas São João e Ipiranga chegou a concentrar dezenas de cinemas, cercados por hotéis, restaurantes, bares e teatros que transformavam uma sessão em programa para uma noite inteira.

O FILME COMEÇAVA ANTES DA TELA

Era preciso sair de casa, escolher uma roupa, encontrar alguém, chegar ao Centro, caminhar pela calçada. Talvez jantar. Comprar o ingresso. Esperar. Entrar em uma sala com centenas — às vezes milhares — de desconhecidos. As luzes diminuíam. E só então começava o filme. Hoje temos uma experiência tecnologicamente superior em praticamente todos os sentidos. Imagem extraordinária dentro de casa, som excelente, streaming, pausa, delivery, sofá e conveniência absoluta. Ganhamos muito. Mas talvez seja intelectualmente preguiçoso concluir que, porque a tecnologia melhorou, a experiência inteira também melhorou. Alguma coisa desapareceu quando eliminamos o caminho entre nossa casa e a tela. O ritual.

“Uma cidade começa a perder a memória não quando um prédio é demolido, mas quando já não existe ninguém capaz de explicar por que aquele lugar importava.”

O DIA EM QUE OS CINEMAS COMEÇARAM A DESAPARECER

Não existe um único culpado. Cidades mudam porque as pessoas mudam. São Paulo cresceu, novas centralidades surgiram, o comércio se deslocou e os hábitos se transformaram. Shopping centers passaram a concentrar consumo, alimentação, estacionamento e entretenimento em um mesmo lugar. A televisão entrou definitivamente nas casas. Depois vieram o videocassete, o DVD, a internet e o streaming. Ao longo desse processo, grandes cinemas de rua perderam público e muitas salas encerraram atividades ou receberam novos usos. Parte dos antigos cinemas do Centro acabou protegida pelo patrimônio municipal, entre eles Art-Palácio, Ipiranga, Marabá, Marrocos, Metrópole, Paissandu e Dom José. Não precisamos romantizar esse processo. Alguns modelos simplesmente deixaram de fazer sentido econômico. A cidade continuou. O problema é que a memória nem sempre conseguiu acompanhá-la.

QUANDO UM CINEMA FECHA, NÃO DESAPARECE APENAS UMA TELA

Imagine milhares de primeiros encontros. Primeiros beijos. Pais levando filhos. Filas na calçada. Funcionários chegando todas as manhãs. Pessoas comprando ingressos. Casais escolhendo onde jantar depois. Taxistas esperando na saída. Garçons recebendo o público após a sessão. Um cinema pode ocupar apenas um terreno, mas movimenta uma pequena geografia ao redor dele. Quando desaparece, a cidade não perde apenas um estabelecimento. Pode perder um hábito. E hábitos também desenham cidades.

As antigas salas de cinema não foram projetadas apenas para exibir filmes. Arquitetura, iluminação, foyers, escadarias e grandes plateias faziam parte da experiência. O espetáculo começava muito antes de a tela acender. Interior do cinema Ufa-Palácio, projeto de Rino Levi, ca. 1936 | Autoria desconhecida/Acervo da biblioteca da FAU/USP

MAS NÃO FORAM APENAS OS CINEMAS

É aqui que a discussão deixa a São João. A mesma transformação aconteceu em diferentes escalas por toda São Paulo. Restaurantes desapareceram, casas deram lugar a edifícios, pequenos comércios fecharam, hotéis mudaram, bares históricos encerraram atividades e ruas inteiras trocaram de personalidade. Não necessariamente porque alguém decidiu destruir a memória da cidade. Na maioria das vezes, aconteceu algo muito mais banal. O terreno passou a valer mais do que aquilo que estava sobre ele. Essa talvez seja uma das forças mais poderosas de transformação de São Paulo. A cidade olha para cima porque o metro quadrado manda. Economicamente, isso pode fazer absoluto sentido. Culturalmente, a conta é mais complicada.

UMA FACHADA NÃO É APENAS UMA FACHADA

Arquitetura também é linguagem. Quando observamos um edifício antigo, encontramos pistas sobre o momento em que ele foi construído: como aquela sociedade desejava viver, o que considerava bonito, como recebia pessoas, que materiais dominava e quanto estava disposta a investir em espaços que não necessariamente poderiam ser vendidos como metros quadrados privativos. Um hall generoso conta alguma coisa. Uma marquise conta alguma coisa. Uma fachada trabalhada conta alguma coisa. Até uma antiga loja de bairro pode contar alguma coisa. Quando substituímos tudo por uma linguagem homogênea, não perdemos apenas ornamento. Perdemos vocabulário.

A CIDADE MAIS RICA NÃO PRECISA SER A MAIS SEM GRAÇA

Talvez essa seja a contradição que mais me incomode como arquiteto. São Paulo possui dinheiro, tecnologia, engenharia, arquitetos extraordinários, incorporadores capazes de realizar projetos enormes e uma indústria de construção sofisticada. Portanto, não deveríamos precisar escolher entre eficiência e beleza. Entre densidade e identidade. Entre rentabilidade e arquitetura. Existem excelentes edifícios contemporâneos provando exatamente o contrário. O problema não é construir novo. É aceitar o banal como consequência inevitável do novo. Porque não é.

“Progresso e beleza nunca foram adversários. O problema começa quando usamos a palavra progresso para justificar tudo aquilo que não tivemos o trabalho de fazer melhor.”
São Paulo não precisa escolher entre passado e futuro. O desafio de uma grande cidade é permitir que os dois conversem. Quando cada geração apaga completamente a anterior, aquilo que desaparece não é apenas arquitetura. É identidade.

NÃO DÁ PARA TOMBÁ-LA INTEIRA

E aqui surge a parte mais difícil dessa conversa. Não podemos preservar tudo. Uma cidade onde nada pode ser demolido também pode se tornar uma cidade incapaz de responder às necessidades de quem vive nela. Nem todo prédio antigo é bom. Nem toda construção merece ser preservada. Nem toda memória pode determinar o futuro de um terreno para sempre. Preservar exige escolher. E escolher significa discutir valor antes que a escavadeira chegue. Talvez precisemos ampliar nossa ideia de patrimônio. Não olhar apenas para o edifício extraordinário, mas também para conjuntos urbanos, paisagens, comércios tradicionais, usos, fachadas, relações entre edifício e rua. Lugares que fazem parte da memória coletiva mesmo sem possuir excepcionalidade arquitetônica. Porque, às vezes, o valor de um lugar não está no concreto. Está no que aconteceu dentro dele.

PRESERVAR NÃO SIGNIFICA CONGELAR

Há uma ideia de preservação que sempre me incomodou: a de que proteger um edifício significa transformá-lo em peça de museu. Não precisa ser assim. Arquitetura sobrevive quando continua sendo usada. Um edifício antigo pode receber tecnologia, mudar de função, ganhar novas instalações. Pode abrigar um restaurante, hotel, escritório, residência, loja ou centro cultural. Pode pertencer ao século XXI sem fingir que nasceu ontem. O passado não precisa competir com o presente. Pode ser matéria-prima para ele. Talvez seja justamente aí que esteja a solução. Não conservar São Paulo exatamente como era, mas permitir que aquilo que fomos continue visível dentro daquilo que estamos nos tornando.

UM DIA ALGUÉM VAI SENTIR SAUDADE DO QUE CONSTRUÍMOS HOJE

Existe ainda uma pergunta incômoda para nós, arquitetos: Quais edifícios construídos agora alguém tentará salvar daqui a cem anos? Quais terão identidade suficiente para representar nossa época? Quais farão alguém parar na calçada em 2126 e dizer: “Ainda bem que não derrubaram isso.” É uma pergunta dura. Porque patrimônio histórico não nasce histórico. Um dia, o Theatro Municipal foi novo. O Copan foi novo. O MASP foi novo. As casas modernistas foram novas. Tudo aquilo que hoje protegemos já foi arquitetura contemporânea. Talvez nossa responsabilidade não seja apenas preservar o que recebemos. É construir alguma coisa que as próximas gerações também tenham vontade de preservar.

Cada geração recebe uma cidade parcialmente construída e entrega outra para a seguinte. A qualidade dessa herança não depende apenas daquilo que conseguimos preservar, mas também daquilo que decidimos construir.

A PRÓXIMA VEZ QUE VOCÊ PASSAR POR UM PRÉDIO ANTIGO

Olhe um pouco mais. Não precisa saber o nome do arquiteto ou o ano da construção. Observe a porta, a janela, a pedra, a marquise, a relação do edifício com a calçada. Talvez exista ali alguma coisa que sobreviverá. Talvez não. São Paulo continuará mudando. Ainda bem. É justamente essa energia que tornou a cidade aquilo que ela é. Mas crescer não deveria significar esquecer. Modernizar não deveria significar padronizar. E construir mais não deveria significar necessariamente construir pior. Como arquiteto, talvez minha nostalgia não seja exatamente da São Paulo que passou. É da sensação de que muitos daqueles edifícios foram construídos para durar tempo suficiente para virar memória. Gostaria que fizéssemos isso mais vezes novamente. Porque talvez o maior luxo de uma cidade não seja ter o edifício mais alto, o apartamento mais caro ou a fachada tecnologicamente mais avançada. Talvez seja conseguir caminhar por suas ruas e perceber que várias gerações estiveram ali antes de nós. E que, apesar de todas as transformações, alguma coisa delas permaneceu. Da próxima vez que alguém apontar para um endereço e disser “aqui existia…”, talvez valha a pena perguntar o que existia. Antes que não reste mais ninguém para responder.

“Uma grande cidade não precisa escolher entre memória e futuro. Precisa construir um futuro que não tenha vergonha de mostrar de onde veio.”